sábado, 26 de setembro de 2009

Isa

Isa está dormindo. Profundamente como sempre, depois da pílula habitual. Também como sempre, estou acordado, sentado na poltrona do quarto, admirando Isa enquanto ela dorme. Faço isso todas as noites, fico ali sentado admirando-a, às vezes por até duas horas, nunca por menos de uma hora. Só depois vou dormir.

Isa tem 1,75m de altura e, quando ganhou o concurso de Miss Brasil, há cinco anos, tinha exatos 90 cm de busto, 60 cm de cintura e 90 cm de quadril – nesse negócio de misses, estas medidas são super importantes, a gente decora mesmo sem querer, e, a bem da verdade, como vocês já puderam verificar, as medidas de Isa eram mais do que perfeitas.

À altura e às medidas de busto, cintura e quadril, acrescente a pele morena, os cabelos longos e ondulados e os olhos verdes de Isa e você terá a mulher perfeita.

Isa tem hoje trinta anos e estamos casados há três.

Sinceramente, nunca soube o que Isa viu em mim. Sou mais baixo do que ela – e ainda mais baixo quando ela usa saltos altos. Não sou bonito, muito pelo contrário. Do corpo, nem se fala – não me lembro de mim sem uma barriga que se acentuou com os anos, que já são quarenta e dois, doze a mais do que Isa. Não sou rico nem brilhante, tenho um emprego comum, que dá pra viver com certo conforto, mas sem luxos. Nunca me destaquei, nem na escola, nem no trabalho.

Apesar de tudo isso, Isa me escolheu.

Começamos a namorar quando ela ainda era Miss Brasil, ficamos noivos logo depois que ela entregou cetro e coroa à sua sucessora – de novo, jargão de misses, desculpem, acostumei-me.

Agora, confesso: nos primeiros anos, foi foda.

Isa era uma deusa da beleza, admirada e cortejada por todos os homens que se acercavam dela. E não eram poucos. E Isa gostava de ser admirada e cortejada, dizia-me que isto era parte de seu papel de Miss Brasil, que era assim mesmo, que ela não podia deixar de atender suas obrigações de Miss, mas que eu ficasse tranquilo, eu era o homem da vida dela, nunca passava nem passaria pela cabeça dela a idéia de trair-me, nem em pensamento.

Eu, evidentemente, fingia que acreditava, mas morria de ciúmes, vivia inseguro, estava sempre imaginando que seria abandonado por um daqueles homens charmosos, ricos e bonitos que viviam à volta de Isa.

Isa deixou de ser Miss Brasil, mas não deixou de ser uma deusa.

Iniciou uma carreira de modelo, logo era capa de revista, reconhecida e admirada e olhada com cobiça pelos homens – e até por algumas mulheres – onde quer que fôssemos.

Isa continuava me dizendo pra ficar tranquilo, que a maioria dos homens no mundo da moda era viado, que eu continuava sendo o único homem da vida dela. Mas eu continuava inseguro, eu via aqueles olhares comendo Isa, e eu sabia que, mais dia menos dia, ela me trocaria por outro.

Aí, aconteceu o acidente.

O carro de Isa, que ela ganhou quando ganhou o concurso de Miss Brasil, foi abalroado por outro. Isa estava dirigindo, a batida foi violenta, Isa ficou presa nas ferragens, a perna esquerda esmagada.

Não houve jeito, a perna teve que ser amputada.

Fim da carreira de modelo. Isa deixou de ser admirada e cobiçada pelos homens – e por algumas mulheres – e virou objeto de pena e comiseração. Não quis mais sair de casa, tinha vergonha de usar muletas ou cadeira de rodas. Nunca mais fizemos sexo.

Mas continuou a deusa da beleza que sempre foi. Ali, deitada, dormindo o sono profundo da pílula de todas as noites, continua a deusa da beleza de sempre.

Como todas as noites, estou ali sentado admirando Isa, a minha deusa.

Não me sinto mais inseguro.

8 comentários:

  1. Gostei muito do conto! É o início da carreira literária?

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  2. Estou treinando pro dia em que estiver efetivamente aposentado, quando pretendo lançar-me à aventura de escrever um livro.

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  3. O aquecimento para a nova carreira está muito bom. ;) Esperamos os próximos.

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  4. Tô preocupada, todos os autores colocam pitadas subjetivas em seus escritos. Ceylão, você sonhava em se casar com uma Miss?
    Outra coisa que me chama a atenção é o fato de a mulher amada ficar muitilada e isso ser para ele um ...alívio!!! Cara filho da puta!! Porco chauvinista!!!

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  5. Porra Lulu, tá vendo...o cara é perigoso!! Gostei do conto, embora ele seja meio psicodélico. Fiquei imaginando a cena: ele contemplando a perneta, a meia luz, com o barulho de um ventilador de teto sem WD40...e tudo no osso, já que nã se fazia sexo há não sei quanto tempo....

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  6. PS - Eu acho postar comentário em BLOG das coisas mais cafonas do mundo...só o fiz mesmo em homenagem ao meu amigo Ceylão, novo "blogueiro" na praça...abs

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  7. Bichara:
    Psicodélico? Cafona?
    Sinto-me numa máquina do tempo.
    Fernando

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